QUARTA-FEIRA, 19 DE AGOSTO DE 2026
Mulher a passar fio dentário entre os dentes para uma correta higiene oralgerado por IA

Passar fio dentário antes ou depois da escovagem?

A questão de saber se deve passar fio dentário antes ou depois da escovagem dos dentes intriga médicos dentistas e pacientes há décadas. Embora mais de 80% das pessoas não usem fio dentário com regularidade, existe divergência até entre profissionais sobre a ordem ideal na rotina de higiene oral. Um ensaio clínico aleatorizado e controlado de 2018 oferece finalmente uma resposta clara – com um resultado surpreendente.

Principais conclusões

  • Ordem ideal confirmada: O ensaio clínico aleatorizado e controlado de 2018 demonstra: passar o fio dentário PRIMEIRO e fazer a escovagem dos dentes DEPOIS proporciona maior redução da placa bacteriana e melhor retenção de flúor nos espaços interdentais.
  • Evidência científica limitada, mas real: Apenas 3 em cada 11 estudos identificaram benefícios significativos adicionais à escovagem dos dentes. O problema reside na fraca qualidade metodológica dos estudos, e não na falta de eficácia da técnica.
  • Controvérsia na medicina dentária: Os críticos chegam a comparar os defensores do fio dentário a “terraplanistas” – um debate que expõe fragilidades metodológicas na investigação em saúde oral.
  • Os espaços interdentais são críticos: Cerca de 40% da superfície dentária corresponde a espaços interdentais de difícil acesso, onde a placa bacteriana se acumula livremente, aumentando o risco de cáries interproximais.
  • Todos os tipos de fio dentário são igualmente eficazes: Com cera ou sem cera, fita dentária ou fio resistente – não existem diferenças clinicamente significativas na remoção da placa bacteriana.
  • O flúor é determinante: A sequência de passar o fio dentário primeiro permite que o flúor da pasta dentífrica penetre com maior facilidade nos espaços interdentais limpos, promovendo a saúde gengival.

Fio dentário: entre a evidência e a controvérsia

Para que serve realmente usar fio dentário?

Durante anos, aceitou-se universalmente que usar fio dentário podia remover até 80% da placa bacteriana acumulada entre os dentes. Este valor tem origem em estudos nos quais os participantes foram distribuídos aleatoriamente para passar fio dentário em apenas metade da boca – utilizando a outra metade da própria dentição como grupo de controlo.

Num desses estudos, solicitou-se aos voluntários que não escovassem os dentes inferiores durante três semanas, permitindo a acumulação deliberada de placa bacteriana. De seguida, aplicou-se fio dentário apenas entre metade desses dentes. Os resultados ao fim de três semanas revelaram:

  • ~60% de redução da placa bacteriana em comparação com os dentes de controlo
  • Redução estatisticamente significativa da gengivite (inflamação das gengivas)
  • Diminuição do sangramento à sondagem
  • Melhoria noutros marcadores inflamatórios e na saúde gengival

No entanto: estes ensaios demonstraram apenas que usar fio dentário é melhor do que NÃO fazer nada. A questão fulcral permanecia em aberto: associar o fio dentário à escovagem dos dentes é substancialmente superior a APENAS escovar?

A controvérsia: “Acreditar no fio dentário como na fada dos dentes”

O debate científico subiu de tom em 2008 com a publicação de um artigo controverso. Os autores argumentavam:

“A recomendação do uso do fio dentário assenta sobretudo no senso comum, mas o senso comum não é ciência.”

A crítica foi contundente: numa análise sistemática a 11 estudos, apenas 3 identificaram benefícios relevantes do uso de fio dentário adicionado à escovagem dos dentes. Alguns críticos foram ao extremo de comparar os médicos dentistas que recomendam o fio a “terraplanistas”:

“A medicina dentária é uma profissão em negação da realidade. Mais de 80% das pessoas não usam fio dentário com regularidade – talvez as massas tenham razão e os clínicos estejam enganados. O fio dentário não funciona – aceitem-no! Talvez acreditar no fio dentário seja como acreditar na fada dos dentes.”

Por que razão a evidência é limitada? O problema da qualidade dos estudos

Desde 2008, têm sido conduzidas novas investigações. A revisão da Cochrane de 2011 e várias revisões sistemáticas recentes indicam: existe pelo menos ALGUMA evidência de melhoria nos quadros de gengivite, embora a evidência relativa à remoção adicional de placa bacteriana permaneça ténue.

O problema, contudo, não se deve (apenas) ao fio dentário, mas sim à qualidade metodológica da investigação:

  • Amostras muito pequenas: muitos estudos incluíram menos de 30 participantes
  • Períodos de seguimento curtos: frequentemente de apenas 2 a 4 semanas
  • Ausência de técnica padronizada: não se controlou COMO o fio dentário era utilizado
  • Critérios de avaliação heterogéneos: índices de placa e métodos de medição muito díspares
  • Falta de ocultação/cegamento: os voluntários sabiam se estavam ou não a usar fio dentário

Como destacou uma publicação científica em defesa do método em 2017: “A metodologia dos ensaios que avaliam a eficácia do fio dentário é frágil – não o fio dentário em si.”

Por que razão a indústria não financia estudos de maior dimensão?

A resposta é puramente económica: porque todos os modelos de fio dentário apresentam eficácia equivalente. Comparações entre fio dentário com cera e sem cera, fita dentária fina ou grossa, standard ou “resistente ao desfiamento” – nenhuma evidenciou diferenças significativas na eliminação da placa bacteriana.

Que interesse teria uma marca em investir milhões de euros num ensaio clínico que apenas comprovaria a utilidade genérica do hábito, sem demonstrar qualquer superioridade comercial face à concorrência? Esta ausência de incentivo financeiro explica a escassez de grandes estudos independentes.

Passar fio dentário antes ou depois: os resultados dos estudos de 2018

Passar fio dentário antes ou depois da escovagem? O debate

Mesmo aceitando a importância da higienização interdental, a sequência ideal na rotina diária permanecia controversa. Estabeleceram-se duas correntes com justificações aparentemente lógicas:

Corrente 1: PRIMEIRO passar o fio dentário, DEPOIS a escovagem dos dentes

  • O fio liberta detritos e desagrega a placa bacteriana nos espaços interdentais
  • A escova de dentes varre de seguida essas partículas soltas
  • O flúor presente na pasta dentífrica com flúor penetra mais facilmente nos espaços interdentais livres
  • Nenhum resíduo permanece retido entre os dentes

Corrente 2: PRIMEIRO a escovagem dos dentes, DEPOIS passar o fio dentário

  • A escova remove a grande maioria dos resíduos das superfícies dentárias
  • O fio dentário ajuda a transportar o flúor residual da pasta para os espaços interdentais
  • A passagem final do fio funciona como a última barreira de limpeza

Ambos os pontos de vista soam coerentes. No entanto, em ciência, as suposições mantêm-se até serem postas à prova num ensaio controlado.

O estudo de Mazhari de 2018: aleatorizado, controlado e conclusivo

Mazhari et al. (2018) conduziram o primeiro ensaio clínico aleatorizado e controlado concebido especificamente para responder à questão sobre se se deve passar fio dentário antes ou depois da escovagem: “The effect of toothbrushing and flossing sequence on interdental plaque reduction and fluoride retention”.

O desenho metodológico incluiu:

  • Distribuição aleatória em dois grupos distintos
  • Grupo 1: fio dentário PRIMEIRO, seguido de escovagem dos dentes
  • Grupo 2: escovagem dos dentes PRIMEIRO, seguida de fio dentário
  • Parâmetros analisados: placa bacteriana interdental e concentração de flúor nos espaços interdentais

O desfecho foi inequívoco: usar o fio dentário PRIMEIRO obteve resultados superiores em ambos os parâmetros.

O grupo que iniciou o procedimento pelo fio dentário e só depois avançou para a escovagem dos dentes revelou:

  • Redução significativamente superior da placa bacteriana nos espaços interdentais
  • Concentrações de flúor substancialmente mais elevadas entre os dentes
  • Melhor higienização global de toda a cavidade oral

Por que motivo passar o fio dentário primeiro é mais eficaz?

A explicação assenta na dinâmica mecânica da limpeza oral:

Quando se usa o fio dentário DEPOIS da escovagem dos dentes:

  1. A escovagem remove a placa bacteriana das faces visíveis dos dentes
  2. O fio desaloja resíduos adicionais acumulados entre os dentes
  3. Problema: essas partículas soltas não têm por onde sair e acabam por permanecer retidas nos espaços interdentais
  4. O flúor da pasta já foi parcialmente diluído e eliminado no bochecho

Quando se passa o fio dentário PRIMEIRO:

  1. O fio desagrega a placa bacteriana e remove os restos de alimentos dos espaços interdentais
  2. A escovagem dos dentes subsequente elimina essas partículas libertadas, que são expelidas com a espuma
  3. O flúor ativo da pasta dentífrica fresca penetra sem barreiras nos espaços interdentais limpos, prevenindo cáries interproximais
  4. Garante-se uma maior retenção de flúor nas zonas de maior risco

Diretrizes especializadas em prevenção de cáries e saúde oral confirmam que a dúvida sobre passar fio dentário antes ou depois foi definitivamente esclarecida: “Os resíduos desagregados dos espaços interdentais são removidos pela ação mecânica da escova e não ficam retidos sobre os dentes. Ao mesmo tempo, o flúor presente na pasta dentífrica com flúor penetra de forma ideal nos espaços interdentais livres, garantindo a sua ação protetora.”

A rotina ideal de higiene oral

Com base na evidência científica consolidada, recomenda-se a seguinte sequência:

  1. Passo 1: Fio dentário ou escovilhão interdentário – higienização minuciosa dos espaços interdentais (que constituem 40% da superfície dentária!)
  2. Passo 2: Escovagem dos dentes com pasta dentífrica com flúor – durante pelo menos 2 minutos, cobrindo todas as faces dos dentes
  3. Passo 3 (opcional): Elixir bucal com flúor – prolonga o tempo de contacto e a biodisponibilidade de flúor

Frequência recomendada: escovar os dentes no mínimo duas vezes ao dia (de manhã e ao deitar) e higienizar os espaços interdentais pelo menos uma vez por dia (preferencialmente à noite).

Como usar fio dentário corretamente

Como usar fio dentário – passo a passo

A eficácia real da higienização depende criticamente da técnica empregue. Muitos estudos laboratoriais e clínicos não monitorizaram a forma exata como os participantes manipulavam o fio – o que explica, em grande parte, os resultados inconsistentes na literatura.

A técnica correta:

  1. Retirar comprimento adequado: corte cerca de 45 a 50 cm de fio dentário
  2. Enrolar nos dedos: enrole a maior parte nos dedos médios de cada mão, mantendo cerca de 2 a 3 cm de fio esticado entre eles
  3. Posicionar: oriente o fio com firmeza utilizando os polegares e os indicadores
  4. Inserir com suavidade: deslize cuidadosamente o fio entre os dentes – NUNCA faça pressão brusca contra a gengiva para evitar cortes
  5. Desenhar um “C”: envolva o dente com o fio de modo a contornar a sua curvatura lateral em forma de “C”
  6. Movimento vertical: deslize suavemente sob a margem gengival (1 a 2 mm) e realize movimentos verticais de vaivém
  7. Limpar as duas faces: IMPORTANTE – cada espaço interdental é composto por DUAS superfícies vizinhas. Curve o fio em redor do dente contíguo e repita o movimento
  8. Utilizar uma secção limpa: desenrole uma porção nova de fio ao avançar para o intervalo seguinte

Erros mais comuns:

  • Utilizar um pedaço demasiado curto – reutilizando a mesma secção com resíduos em toda a boca
  • Fazer movimentos apenas retos para a frente e para trás – limpa apenas o ponto de contacto e não as faces laterais
  • Aplicar força excessiva – traumatizando os tecidos gengivais
  • Permanecer à superfície – sem alcançar a linha subgengival
  • Limpar apenas um dos lados do espaço interdental – deixando 50% da área por higienizar

Até que profundidade se deve inserir o fio dentário?

O fio deve entrar com suavidade cerca de 1 a 2 mm abaixo da margem gengival – no interior do sulco gengival (o pequeno espaço anatómico entre o dente e a gengiva). Trata-se da área mais vulnerável à acumulação de bactérias da placa bacteriana e à génese da gengivite.

Atenção: numa gengiva saudável, esta bolsa mede apenas entre 1 e 3 mm de profundidade. Em quadros de periodontite, as bolsas periodontais podem atingir entre 4 e 12 mm. Forçar a passagem do fio pode lesionar as fibras de suporte e provocar recessão gengival.

Caso sinta dor persistente ou verifique sangramento gengival regular ao utilizar o fio dentário, consulte o seu médico dentista – estes sintomas são sinais clássicos de gengivite ou periodontite ativa.

Quantas vezes se deve usar fio dental por dia?

A American Dental Association (ADA) e as diretrizes internacionais de saúde oral aconselham: pelo menos uma vez por dia, idealmente à noite antes de ir dormir.

Porquê antes de dormir?

  • Durante o sono, o fluxo salivar diminui consideravelmente (reduzindo a proteção antibacteriana natural da saliva)
  • As bactérias beneficiam de 7 a 8 horas para proliferar sem interferência mecânica
  • Os resíduos acumulados durante as refeições do dia permanecem estagnados
  • O flúor da pasta dentífrica aplicada à noite permanece ativo na cavidade oral durante o repouso

Em certas circunstâncias clínicas, os médicos dentistas aconselham o uso de fio dentário duas vezes ao dia – de manhã e à noite. Esta prática é particularmente benéfica em casos de:

  • Histórico prévio de doença periodontal
  • Espaços interdentais muito apertados com retenção frequente de alimentos
  • Portadores de aparelhos ortodônticos ou próteses dentárias fixas
  • Elevado risco individual de cáries interproximais

A partir de que idade se deve usar fio dentário?

Assim que dois dentes se encontrem encostados um ao outro, os espaços interdentais devem começar a ser limpos. Na grande maioria das crianças, esta fase surge por volta dos 2 aos 3 anos de idade (com o nascimento dos molares decíduos).

Recomendações por faixa etária:

  • 2 aos 6 anos: a aplicação do fio deve ser realizada integralmente pelos pais
  • 6 aos 10 anos: realizada pela criança com supervisão ativa dos pais para consolidação da destreza
  • A partir dos 10 a 12 anos: utilização autónoma, mantendo-se verificações periódicas

Para facilitar a adesão em crianças pequenas, o fio dentário com aplicador ou os suportes descartáveis de fio interdental constituem excelentes alternativas por serem muito mais práticos de manusear.

Tipos de fio dentário: com cera vs. sem cera

Qual é a melhor opção: devo usar fio dental ou fita dentária?

A resposta sincera: o melhor fio dentário é aquele que realmente utiliza com regularidade. Os estudos científicos não demonstram diferenças significativas na remoção da placa bacteriana entre os vários tipos de fio ou fita dentária.

Fio dentário com cera ou sem cera?

Um estudo comparativo (Terézhalmy et al., 2008) avaliou quatro tipos diferentes de fio dentário:

  • Fio dentário padrão sem cera
  • Fio dentário com cera
  • Fio dentário com cera “resistente ao desfiamento”
  • Fio dentário expansível (que se expande em contacto com a saliva)

Resultado: TODOS os quatro tipos demonstraram a mesma eficácia na remoção da placa bacteriana. A escolha deve, portanto, basear-se na sua preferência pessoal:

Fio dentário com cera – Vantagens:

  • Desliza mais facilmente entre os espaços interdentais mais apertados
  • Desfia e parte com menos facilidade (mais confortável em pontos de contacto estreitos)
  • Melhor sensação de deslizamento, com menor resistência
  • Recomendado para principiantes e dentes muito juntos

Fio dentário sem cera – Vantagens:

  • Expande-se ligeiramente entre os dentes, proporcionando uma maior área de contacto
  • Dá um retorno tátil (ouve-se o chiar característico da remoção da placa bacteriana)
  • Geralmente mais ecológico (sem revestimento de cera)
  • Recomendado para espaços interdentais normais a amplos

PFAS no fio dentário – motivo de preocupação?

Um estudo de 2019 identificou concentrações elevadas de PFAS (substâncias per- e polifluoroalquilo, conhecidas como “químicos eternos”) em pessoas que utilizavam determinadas marcas de fio dentário com revestimento de Teflon. Os PFAS estão associados a potenciais riscos para a saúde (desregulação hormonal e risco oncológico).

O que fazer?

  • Optar por fio dentário sem cera ou revestido com cera natural (cera de abelha ou de candelilha)
  • Evitar marcas que promovam tecnologia “Glide” ou “Easy Slide” à base de PTFE (politetrafluoretileno)
  • Procurar certificações livres de PFAS
  • Escolher fio de seda natural ou de bambu com revestimento biológico

Este risco deve ser visto com perspetiva: os benefícios comprovados de usar fio dentário para a saúde gengival e higiene oral superam largamente o risco potencial dos PFAS. Ainda assim, faz todo o sentido optar por alternativas isentas de PFAS sempre que estiverem disponíveis.

Problemas frequentes e soluções

Gengivas a sangrar ao usar fio dentário – normal ou preocupante?

Um ligeiro sangramento gengival ao começar a usar fio dentário ou após uma longa pausa é relativamente normal. Na maioria dos casos, indica a presença de uma gengivite (inflamação das gengivas).

Sangramento nas primeiras 1 a 2 semanas:

  • Geralmente é sinal de inflamação, a qual irá regredir com o uso contínuo do fio dentário
  • Continue a passar o fio suavemente (não desista!)
  • Por norma, o sangramento cessa após 7 a 14 dias de utilização diária regular
  • Este é um BOM sinal – mostra que a inflamação foi identificada e está a ser tratada

Sangramento persistente ou abundante após 2 a 3 semanas:

  • Pode indicar uma gengivite avançada ou periodontite
  • Recomenda-se uma consulta no médico dentista
  • Pode ser necessária uma destartarização ou limpeza profissional
  • A técnica pode estar a ser demasiado agressiva – aplique menos força (ou experimente um fio dentário com aplicador para maior controlo)

O Eastman Interdental Bleeding Index é frequentemente utilizado em estudos clínicos para avaliar a gengivite. O sangramento provocado pelo uso do fio dentário é um indicador precoce e sensível de inflamação gengival – mais preciso do que a simples inspeção visual.

Retração gengival causada pelo fio dentário?

A recessão gengival provocada pelo fio dentário é possível, mas rara – quase sempre decorre de uma técnica incorreta:

Fatores de risco:

  • Movimentos de vaivém demasiado agressivos em serra
  • Forçar a passagem brusca do fio nos pontos de contacto apertados
  • Introduzir o fio com demasiada profundidade sob a margem gengival
  • Uso de materiais desadequados (como linha de costura ou fio de pesca – sim, acontece!)

Prevenção:

  • Movimentos suaves e controlados
  • Deixar o fio deslizar suavemente entre os dentes, sem estalidos bruscos contra a gengiva
  • Em contactos muito estreitos, recorrer a fita dentária ou fio com cera
  • Formar um “C” a abraçar cada dente – nunca serrar horizontalmente
  • Em caso de dúvida: peça uma demonstração prática ao seu médico dentista ou higienista oral

Importante: a causa mais frequente de retração gengival NÃO é o fio dentário, mas sim a periodontite (decorrente de higiene oral deficiente) ou uma escovagem dos dentes excessivamente agressiva com escovas de cerdas duras.

Por que razão o fio dentário cheira mal após a utilização?

O odor desagradável no fio dentário usado tem origem em:

  • Bactérias e os seus subprodutos metabólicos: sobretudo bactérias anaeróbias que libertam compostos sulfurados voláteis (CSV)
  • Restos alimentares em decomposição: resíduos ricos em proteínas acumulados entre os dentes que são degradados pelas bactérias
  • Placa bacteriana: o próprio biofilme bacteriano possui um odor característico

Curiosamente, o mau cheiro é a prova de que era indispensável usar fio dentário – evidencia a quantidade de bactérias e detritos retidos nos espaços interdentais. A utilização diária reduz a carga bacteriana e faz com que o odor diminua progressivamente.

Se o odor for extremamente intenso ou fétido:

  • Pode ser sinal de cáries interproximais profundas entre os dentes
  • Periodontite com bolsas periodontais profundas
  • Impactação profunda de resíduos alimentares
  • Recomenda-se uma avaliação pelo médico dentista

De que é feito o fio dentário?

O fio dentário convencional é habitualmente composto por:

  • Nylon (poliamida): a maioria dos fios comerciais é constituída por multifilamentos de nylon
  • PTFE (politetrafluoretileno): fios do tipo “Glide” – deslizam muito bem, mas suscitam preocupações quanto aos PFAS
  • Seda: o material tradicional original, hoje menos comum
  • Revestimentos: cera (de abelha, candelilha ou carnaúba), flúor e aromas (menta, hortelã-pimenta, etc.)

Alternativas ecológicas:

  • Fio dentário de fibra de bambu (com revestimento de cera vegetal natural)
  • Fio de seda natural genuína (biodegradável, embora mais dispendioso)
  • Fio dentário de PLA à base de amido de milho (biodegradável)

Flúor e prevenção de cáries: por que passar fio dentário antes ou depois faz a diferença

A importância do flúor na proteção dentária

O estudo de Mazhari (2018) demonstrou não apenas uma redução superior da placa bacteriana quando se opta por passar fio dentário antes da escovagem, mas também uma retenção de flúor significativamente mais elevada nos espaços interdentais. Porque é que este fator é determinante?

O flúor protege a dentição através de três mecanismos:

  1. Remineralização: repara as lesões iniciais de cárie através da incorporação de cálcio e fosfato no esmalte dentário
  2. Fortalecimento do esmalte: forma fluorapatite, uma estrutura mineral muito mais resistente aos ácidos do que a hidroxiapatite
  3. Ação antibacteriana: inibe a atividade enzimática bacteriana e a proliferação da placa bacteriana

Os espaços interdentais são zonas especialmente suscetíveis ao desenvolvimento de cáries interproximais porque:

  • São de difícil acesso para as cerdas da escova de dentes
  • Acumulam facilmente restos alimentares
  • As bactérias encontram ali condições anaeróbias ideais para proliferar
  • Ficam frequentemente menos expostos ao flúor do que as restantes superfícies dentárias

Saber se deve passar fio dentário antes ou depois da escovagem é crucial: a sequência de passar o fio primeiro e escovar a seguir maximiza a biodisponibilidade do flúor exatamente nos locais mais vulneráveis.

Concentração ideal de flúor e recomendações

A Direção-Geral da Saúde (DGS) e os especialistas em saúde oral recomendam para adultos:

  • Pasta dentífrica com flúor: 1.450 ppm de flúor (concentração padrão para adultos)
  • Escovar no mínimo 2 vezes por dia: de manhã e à noite
  • Não bochechar de imediato: após a escovagem, deve apenas cuspir o excesso de pasta e não bochechar com água (permite que o flúor continue a atuar no esmalte)
  • Opcional: elixir com flúor: como terceiro passo após o fio dentário e a escovagem dos dentes
  • Sal alimentar fluoretado: mantém ação protetora durante cerca de 30 minutos após as refeições

Para as crianças aplicam-se orientações específicas segundo a faixa etária (concentrações mais baixas de ppm para crianças pequenas, de modo a prevenir a deglutição).

A rotina de 3 passos na higiene oral: quantas vezes se deve usar fio dental por dia?

Em síntese, a rotina de higiene oral baseada na evidência científica organiza-se em três etapas:

Passo 1: Higiene dos espaços interdentais (quantas vezes se deve usar fio dental por dia?)

  • Fio dentário, fita dentária ou escovilhão interdentário (ideal para espaços mais amplos)
  • Limpar todos os espaços interdentais, em ambas as faces de cada dente
  • Formar um “C” em torno de cada dente, inserindo com suavidade sob o bordo gengival
  • Pelo menos 1 vez por dia (à noite, obrigatoriamente), sendo o ideal 2 vezes por dia

Passo 2: Escovagem dos dentes com pasta dentífrica com flúor

  • Utilizar pasta com 1.450 ppm de flúor para adultos
  • Escovar durante pelo menos 2 minutos completos
  • Abranger todas as faces dentárias (externas, internas e superfícies mastigatórias)
  • No final, apenas cuspir a pasta, sem passar a boca por água

Passo 3 (opcional): Elixir ou colutório com flúor

  • Aumenta o tempo de contacto e a disponibilidade de flúor nas zonas de risco
  • Especialmente benéfico em indivíduos com elevado risco de cárie
  • Não utilizar imediatamente a seguir à escovagem – aguarde cerca de 30 minutos ou utilize noutro momento do dia

A decisão de passar fio dentário antes ou depois da escovagem faz a diferença: esta ordem correta assegura uma “remoção mais profunda das bactérias nocivas e concentrações superiores de flúor nos dentes” — sobretudo nas áreas interdentais críticas, que correspondem a cerca de 40% de toda a superfície dos dentes.

Fontes científicas

Simon G. - GesundeFakten Redaktion